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Dr. Vitor Fabris – Dermatologista em Criciúma – SC

Dr Vitor Fabris é dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia e da Academia Europeia de Dermatologia e Venereologia. É graduado em medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e realizou residência em dermatologia na PUCRS. Tem experiência no tratamento clínico e cirúrgico da hidradenite supurativa, assim como no tratamento da doença com medicamentos imunobiológicos.

Hidradenite supurativa: quando um “furúnculo” pode ser algo muito mais sério

Se você sofre com caroços dolorosos que aparecem repetidamente nas axilas, virilhas, nádegas ou abaixo das mamas, é possível que não esteja diante de simples furúnculos.

A hidradenite supurativa (HS) é uma doença inflamatória crônica da pele que afeta milhares de brasileiros e, infelizmente, costuma demorar anos para ser diagnosticada corretamente. Muitos pacientes passam por diversos tratamentos com antibióticos ou drenagens antes de receberem o diagnóstico adequado. Estudos internacionais mostram que esse atraso pode chegar a aproximadamente sete anos.

O problema é que, quanto mais tempo a doença permanece ativa sem tratamento adequado, maior é o risco de desenvolver cicatrizes permanentes, túneis sob a pele (fístulas) e dor crônica.

A boa notícia é que hoje existem tratamentos muito mais eficazes do que havia há poucos anos. O reconhecimento precoce da doença permite controlar a inflamação, reduzir crises e preservar a qualidade de vida.

O que é hidradenite supurativa?

A hidradenite supurativa é uma doença inflamatória crônica dos folículos pilosos, e não uma doença das glândulas sudoríparas, como se acreditava antigamente.

Hoje sabemos que o problema começa com a obstrução do folículo piloso. Esse bloqueio leva ao rompimento da parede do folículo, desencadeando uma intensa resposta inflamatória do organismo. Com o tempo, essa inflamação pode formar abscessos, túneis sob a pele e cicatrizes espessas.

Por esse motivo, atualmente muitos especialistas também utilizam o termo acne inversa.

Apesar de ser uma doença crônica, ela pode ser controlada com acompanhamento especializado.

imagem contendo lesões axilares típicas da hidradenite supurativa
Lesão típica de hidradenite supurativa na axila

Quais regiões do corpo costumam ser afetadas?

A hidradenite aparece principalmente em áreas onde existe atrito entre as dobras da pele.

As regiões mais comuns são:

  • axilas;
  • virilhas;
  • região genital;
  • períneo;
  • nádegas;
  • sulco entre as nádegas;
  • abaixo das mamas.

Em alguns pacientes, outras áreas sujeitas ao atrito também podem ser acometidas, como cintura, abdome e região onde o sutiã ou roupas apertadas exercem pressão.

Quais são os sintomas?

Os sintomas variam bastante entre os pacientes.

Os mais frequentes incluem:

  • caroços dolorosos;
  • nódulos profundos;
  • abscessos;
  • saída de secreção;
  • mau cheiro decorrente da drenagem;
  • recorrência no mesmo local;
  • cicatrizes;
  • pequenos orifícios na pele;
  • túneis sob a pele que drenam secreção continuamente.

A dor costuma ser intensa e pode dificultar atividades simples como caminhar, levantar os braços ou permanecer sentado.

Nos casos mais avançados, os túneis inflamados passam a drenar secreção frequentemente e deixam cicatrizes espessas e endurecidas.

Hidradenite ou furúnculo? Como diferenciar?

Essa é uma das maiores dúvidas dos pacientes.

Embora as duas doenças possam parecer semelhantes inicialmente, existem diferenças importantes.

FurúnculoHidradenite supurativa
Episódio isoladoDoença recorrente
Costuma desaparecer definitivamenteVolta repetidamente
Pouca cicatrizCicatrizes frequentes
Não forma túneisPode formar túneis sob a pele
Geralmente ocorre em qualquer localPredomina nas dobras da pele

Se os “furúnculos” aparecem repetidamente na mesma região durante meses ou anos, é fundamental consultar um dermatologista.

O que causa a hidradenite supurativa?

A causa exata ainda não é totalmente conhecida.

O que sabemos atualmente é que vários fatores contribuem para o desenvolvimento da doença.

Entre eles estão:

Predisposição genética

A hidradenite costuma ocorrer em várias pessoas da mesma família.

Estima-se que aproximadamente 40% dos pacientes possuam algum familiar de primeiro grau acometido pela doença.

Alterações do sistema imunológico

Após a ruptura do folículo piloso ocorre uma resposta inflamatória intensa, envolvendo diversas moléculas inflamatórias, como TNF, IL-17 e IL-1.

Esse conhecimento permitiu o desenvolvimento dos medicamentos imunobiológicos atualmente utilizados nos casos moderados e graves.

Atrito da pele

Regiões submetidas à fricção constante apresentam maior risco.

Isso explica por que a doença aparece principalmente nas axilas, virilhas e abaixo das mamas.

Obesidade

O excesso de peso está associado a maior gravidade da doença.

Isso ocorre por diversos mecanismos:

  • maior atrito cutâneo;
  • aumento da inflamação sistêmica;
  • alterações hormonais;
  • maior umidade nas dobras da pele.

Entretanto, é importante lembrar que pessoas magras também podem desenvolver hidradenite supurativa.

Tabagismo

O cigarro é um dos fatores mais fortemente associados à hidradenite.

Além de aumentar o risco de desenvolver a doença, fumantes frequentemente apresentam casos mais graves e menor resposta ao tratamento.

A hidradenite é contagiosa?

Não.

Essa é uma das maiores preocupações dos pacientes.

A hidradenite não é causada por falta de higiene, não é contagiosa e não pode ser transmitida pelo contato físico.

Mesmo quando há saída de secreção, isso não significa que exista uma infecção transmissível.

Infelizmente, esse preconceito faz com que muitos pacientes sofram isolamento social e vergonha da doença.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico é essencialmente clínico.

Na consulta, o dermatologista avalia:

  • localização das lesões;
  • recorrência dos episódios;
  • presença de cicatrizes;
  • túneis inflamatórios;
  • histórico familiar;
  • doenças associadas.

Em alguns casos, o ultrassom dermatológico pode ajudar a identificar túneis que ainda não são visíveis no exame físico. Em outros, pode ser necessário realizar uma biópsia: remover um pequeno pedaço de pele para análise histopatológica.

Quanto mais cedo o diagnóstico é feito, maiores são as chances de evitar sequelas permanentes.

Como avaliamos a gravidade da doença?

Imagem demosntrando os 3 níveis da classificação de Hurley da Hidradenite supurativa

A classificação mais utilizada é chamada Classificação de Hurley, que divide a hidradenite em três estágios:

Hurley IHurley IIHurley III
Há nódulos e abscessos, mas ainda não existem túneis nem cicatrizes permanentes.Além dos nódulos, começam a surgir túneis sob a pele e cicatrizes.Existem múltiplos túneis interligados, áreas extensas inflamadas e comprometimento importante da região acometida.

Essa classificação auxilia na escolha do tratamento mais adequado.

Tratamento da hidradenite supurativa

Uma das dúvidas mais frequentes dos pacientes é: “Existe tratamento para hidradenite supurativa?”

A resposta é sim. Embora ainda não exista uma cura definitiva para a maioria dos casos, os tratamentos atuais conseguem reduzir significativamente as crises, aliviar a dor, evitar a formação de novas lesões e melhorar muito a qualidade de vida. Os objetivos do tratamento incluem controlar a inflamação, prevenir a formação de túneis e cicatrizes, tratar as lesões já existentes e minimizar o impacto físico e emocional da doença.

A escolha do tratamento depende principalmente da gravidade da doença, da extensão das lesões, da presença de cicatrizes e das características de cada paciente.

Antibióticos

Apesar de muitas pessoas acreditarem que a hidradenite seja uma infecção, os antibióticos são utilizados principalmente por seu efeito anti-inflamatório.

Nos casos leves, as tetraciclinas (como a doxiciclina) costumam ser a primeira opção. Em pacientes com doença mais extensa ou resposta insuficiente, podem ser utilizados esquemas combinados, como clindamicina e rifampicina.

É importante destacar que o uso prolongado de antibióticos deve ser sempre acompanhado pelo dermatologista para evitar resistência bacteriana e efeitos adversos.

Tratamentos hormonais

Algumas mulheres apresentam piora da hidradenite durante o período menstrual ou possuem condições associadas, como síndrome dos ovários policísticos.

Nessas situações, medicamentos hormonais, como anticoncepcionais combinados ou espironolactona, podem ajudar a reduzir a frequência das crises. A indicação depende da idade, desejo reprodutivo, contraindicações e outras condições clínicas.

Metformina

Embora seja conhecida como medicamento para diabetes, a metformina também pode beneficiar alguns pacientes com hidradenite, especialmente aqueles com resistência à insulina, obesidade ou síndrome dos ovários policísticos.

Seu efeito parece estar relacionado à melhora do metabolismo e à redução da inflamação.

Medicamentos imunobiológicos

Nos últimos anos, os imunobiológicos transformaram o tratamento da hidradenite moderada e grave.

Esses medicamentos atuam bloqueando moléculas inflamatórias específicas envolvidas na doença, reduzindo a formação de novos nódulos, drenagem, dor e progressão para cicatrizes. Revisões recentes também apontam o desenvolvimento de novas terapias direcionadas a diferentes vias inflamatórias, ampliando as opções terapêuticas para pacientes com doença refratária.

A indicação desses medicamentos deve ser individualizada e realizada por um dermatologista experiente.

Cirurgia

Ao contrário do que muitos imaginam, a cirurgia não é indicada apenas para os casos mais graves.

Ela pode ser utilizada para remover áreas com túneis crônicos, nódulos recorrentes e cicatrizes que dificilmente respondem ao tratamento medicamentoso. Em muitos pacientes, a combinação entre cirurgia e tratamento clínico proporciona os melhores resultados.

Um ponto importante é que a simples drenagem de um abscesso geralmente não resolve o problema de forma definitiva e favorece recorrências, motivo pelo qual esse procedimento não é recomendado como tratamento de rotina.

foto contendo diagrama com os principais locais afetados pela hidradenite supurativa
Locais mais frequentemente afetados pela hidradenite supurativa, nos quais a cirurgia pode ser realizada

Mudanças no estilo de vida ajudam?

Sim.

Embora não substituam os medicamentos, algumas medidas podem contribuir para um melhor controle da doença.

Entre elas estão:

  • interromper o tabagismo;
  • buscar perda de peso quando houver obesidade;
  • evitar roupas muito apertadas;
  • reduzir o atrito constante sobre as áreas acometidas;
  • manter acompanhamento regular com o dermatologista.

Embora as evidências científicas ainda sejam limitadas quanto ao impacto isolado dessas medidas, elas são recomendadas por seu potencial benefício e pelos importantes ganhos para a saúde geral.

A hidradenite pode estar associada a outras doenças?

Sim.

Pacientes com hidradenite apresentam maior risco de algumas doenças associadas, como:

  • obesidade;
  • diabetes;
  • hipertensão;
  • dislipidemia;
  • síndrome metabólica;
  • doença de Crohn;
  • artrites inflamatórias;
  • síndrome dos ovários policísticos;
  • ansiedade e depressão.

Por isso, o tratamento da hidradenite deve ser abrangente e considerar a saúde do paciente como um todo.

Qual o impacto da hidradenite na qualidade de vida?

A hidradenite supurativa afeta muito mais que a pele.

Dor intensa, secreção constante, odor, necessidade de curativos frequentes e cicatrizes podem afetar profundamente a autoestima, os relacionamentos, o trabalho e a vida social. Estudos mostram maior frequência de ansiedade, depressão e isolamento social entre pessoas com a doença.

Por isso, o suporte emocional e o acolhimento também fazem parte do tratamento.

Quando procurar um dermatologista?

Procure avaliação especializada se você apresentar:

  • caroços dolorosos recorrentes nas axilas ou virilhas;
  • lesões que sempre retornam no mesmo local;
  • saída frequente de secreção;
  • cicatrizes associadas aos episódios;
  • dor persistente;
  • necessidade repetida de drenagens ou antibióticos.

O diagnóstico precoce reduz significativamente o risco de complicações e permite iniciar tratamentos mais eficazes antes que a doença evolua para formas mais graves.

Conclusão

A hidradenite supurativa é uma doença inflamatória crônica que pode comprometer significativamente a qualidade de vida, mas não deve ser encarada como uma condição sem tratamento. Os avanços no entendimento da doença permitiram o desenvolvimento de terapias cada vez mais eficazes, incluindo medicamentos imunobiológicos e abordagens cirúrgicas específicas.

Se você convive com “furúnculos” recorrentes, principalmente nas axilas, virilhas ou outras áreas de dobra da pele, procure avaliação com um dermatologista. O diagnóstico precoce é a melhor forma de controlar a doença, prevenir cicatrizes permanentes e recuperar sua qualidade de vida.


Perguntas frequentes sobre hidradenite supurativa (FAQ)

O que é hidradenite supurativa?

A hidradenite supurativa é uma doença inflamatória crônica da pele que provoca nódulos dolorosos, abscessos e cicatrizes, principalmente nas axilas, virilhas, nádegas e abaixo das mamas.

Hidradenite supurativa é contagiosa?

Não. A doença não é causada por falta de higiene e não pode ser transmitida pelo contato físico.

Hidradenite supurativa tem cura?

Na maioria dos casos, trata-se de uma doença crônica. Entretanto, os tratamentos atuais conseguem controlar a inflamação, reduzir crises e melhorar significativamente a qualidade de vida.

Qual a diferença entre hidradenite e furúnculo?

O furúnculo costuma ser um episódio isolado. Já a hidradenite provoca lesões recorrentes, frequentemente no mesmo local, podendo formar túneis e cicatrizes.

Quais são os primeiros sintomas?

Os primeiros sinais costumam ser caroços dolorosos e profundos nas axilas, virilhas ou outras áreas de dobra, que reaparecem repetidamente.

O cigarro piora a hidradenite?

Sim. O tabagismo está fortemente associado ao aparecimento da doença, maior gravidade e pior resposta ao tratamento.

A obesidade causa hidradenite?

Não diretamente. Entretanto, o excesso de peso aumenta o risco de agravamento da doença e está associado a formas mais severas.

Existe alimentação específica para hidradenite?

Até o momento, não existe uma dieta universalmente recomendada. Entretanto, manter alimentação equilibrada e peso saudável pode contribuir para o controle da doença.

Quando é necessária cirurgia?

A cirurgia costuma ser indicada para remover túneis inflamatórios, cicatrizes extensas e áreas com recorrência frequente que não respondem adequadamente ao tratamento clínico.

Qual médico trata hidradenite supurativa?

O dermatologista é o especialista mais capacitado para diagnosticar, estadiar e indicar o tratamento mais adequado para cada paciente.


Leia mais

Sociedade Brasileira de Dermatologia: Hidradenite Supurativa

MSD Manuals: Hidradenite Supurativa

Jornal da USP: Hidradenite supurativa: quando uma espinha pode virar um problema sério

Blog do site: Acne

Blog do site: Acne da Mulher Adulta

Blog do site: Dermatologista


Referências

Alikhan A, Lynch PJ, Eisen DB. Hidradenitis Suppurativa. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2025. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK534867/

Alikhan A, Sayed C, Alavi A, et al. North American clinical management guidelines for hidradenitis suppurativa. J Am Acad Dermatol.

Goldburg SR, Strober BE, Payette MJ. Hidradenitis suppurativa: epidemiology, clinical presentation, and pathogenesis. Clin Cosmet Investig Dermatol. 2018;11:105-115. Disponível em:

Ingram JR. Hidradenitis suppurativa: Pathogenesis, clinical features, and diagnosis. In: UpToDate. Waltham, MA: UpToDate Inc.; 2026. Atualizado em 6 abr. 2026.

Ingram JR. Hidradenitis suppurativa: Management. In: UpToDate. Waltham, MA: UpToDate Inc.; 2026. Atualizado em 9 jul. 2026.

Zouboulis CC, Alikhan A, Jemec GBE, et al. Hidradenitis suppurativa. Lancet. 2025;405:455-472. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6239161/

Zouboulis CC, Desai N, Emtestam L, et al. European S1 guideline for the treatment of hidradenitis suppurativa/acne inversa. J Eur Acad Dermatol Venereol.

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